Você para na frente do espelho. Joga o cabelo para trás. E lá está de novo — aquela entrada que a cada mês parece mais larga, aquela região na coroa onde a luz atravessa diferente. Você diz a si mesmo que de boné nem aparece. Que "assim eu fico bem".
Mas por dentro você sabe a verdade. E a verdade é que cada manhã é um pouco pior que a anterior.
Estou envelhecendo mais rápido que meus amigos. E todos notam, mesmo que ninguém fale nada.
Você tira uma foto numa reunião e a primeira coisa que faz é procurar sua cabeça na imagem. Vê como a luz bate de cima e seu estômago revira. Você apaga. Pede outra. Pede outra. Pede outra. E no final você nem quer mais aparecer nas fotos.
No trabalho, nas baladas, nos apps — você sente que os olhares duram um segundo a menos que antes. Não é paranoia. É que o cabelo para um homem não é vaidade. É status. É a primeira coisa que as pessoas leem em você antes de apertar sua mão. Antes de saber seu nome. Antes de saber o que você faz.
E o pior: você já gastou dinheiro em coisas que não funcionaram. O shampoo que seu amigo recomendou. O óleo de rícino. Os comprimidos que você teve medo de tomar porque leu que podem baixar a libido. Você disse a si mesmo "vou esperar pra ver se para sozinho".
Não vai parar sozinho. Vai piorar. E você sabe disso.




